terça-feira, 22 de novembro de 2011

Rimbaud por Claudio Willer - Surrealismo e Poesia no Barco Bêbado de Rimbaud - 21 de novembro de 2011


Arthur Rimbaud
Correspondências (fragmento)

Tradução de Ivo Barroso


Carta a Paul Demeny

Charleville, 15 de maio de 1871.

Resolvi proporcionar-lhe uma hora de literatura nova. Começo logo com um salmo de atualidade:

CANTO DE GUERRA PAISIENSE


– Eis um pouco de prosa sobre o futuro da poesia –
Toda a poesia antiga vai dar na poesia grega, Vida harmoniosa. – Da Grécia ao movimento romântico – Idade Média – só temos literatos, versificadores. De Ênio a Teroldo, de Teroldo  a Casimir Delavigne, tudo é prosa rimada, um jogo, aviltamento e glória de inúmeras gerações idiotas: Racine é o puro, o forte, o grande. Se tivessem apagado suas rimas, embaralhado seus hemistíquios, o Divino Tolo seria hoje tão ignorado quanto o último entre os autores de Origens. Depois de Racine, o jogo cria mofo. Havia durado dois mil anos.
Nem pilhéria, nem paradoxo. A razão me inspira mais certezas sobre o assunto do que jamais poderia ter de cóleras um Jeune-France. Quanto ao mais, liberdade aos novos! de execrar os ancestrais: estamos em casa e temos tempo.
O romantismo nunca foi bem julgado. Quem o julgaria? Os críticos!! Os românticos, que provam muito bem como a canção é raramente obra, ou seja, o pensamento cantado e compreendido do cantor?
Porque Eu é um outro. Se o cobre acorda clarim, nenhuma culpa lhe cabe. Para mim é evidente: assisto à eclosão de meu pensamento: eu a contemplo, eu a escuto. Tiro uma nota ao violino: a sinfonia agita-se nas profundezas, ou ganha de um salto a cena.
Se os velhos imbecis tivessem descoberto algo mais que a falsa significação do Eu, não teríamos de varrer esses milhões de esqueletos que, desde um tempo infinito, vêm acumulando os produtos de sua inteligência caolha, arvorados em autores!
Na Grécia, já disse, versos e liras dão ritmo à Ação. Depois disso, música e rimas se tornaram jogos, divertimentos. O estudo desse passado encanta os curiosos; vários se distraem em renovar tais antiguidades: é coisa para eles. A inteligência universal sempre rejeitou essas ideias, é claro; os homens recolheram uma parte desses frutos do cérebro; agiam segundo eles, escreviam livros com eles; assim andaram as coisas, o homem não se aperfeiçoando, não estando ainda desperto, ou ainda não na plenitude do grande sonho. Funcionários, escritores: autor, criador, poeta, tal homem jamais existiu!
O primeiro estudo de quem aspira a ser poeta é o conhecimento total de si mesmo; buscar sua alma, inspecioná-la, experimentá-la, conhecê-la. Assim que a sabe, deve cultivá-la; isso parece simples: em todo cérebro realiza-se um desenvolvimento natural; quantos egoístas se proclamam autores; há muitos outros que se atribuem seu progresso intelectual! – Mas trata-se de tornar a alma monstruosa: à maneira dos comprachicos, em suma! Imagine um homem que plante e cultive verrugas em seu rosto.
Afirmo que é preciso ser vidente, fazer-se vidente.
O Poeta se faz vidente por meio de um longo, imenso e racional desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; buscar-se a si, esgotar em si mesmo todos os venenos, a fim de só lhes reter a quintessência. Inefável tortura para a qual se necessita toda a fé, toda a força sobre-humana, e pela qual o poeta se torna o grande enfermo, o grande criminoso, o grande maldito, – e o Sabedor supremo! – pois alcança o insabido. Por ter, como ninguém, cultivado sua alma, que já era rica, ele alcança o desconhecido, e quando, assombrado, terminar por perder a consciência de suas visões, ele as terá visto! Que se arrebente no salto rumo às coisas inauditas e inomináveis: outros trabalhadores horríveis virão; e começarão pelos horizontes onde o outro sucumbiu!

– Continuação em seis minutos – 

Intercalo aqui um outro salmo fora do texto: conceda-lhe uma atenção complacente, – e todo mundo ficará encantado. – Tenho o arco em mão, começo:


MINHAS POBRES NAMORADAS


Eis aí. E veja bem que, se não receasse fazê-lo desembolsar mais de 60 cent. De porte, – eu pobre coitado que, em sete meses, não vi sequer uma moeda de bronze! – mandar-lhe-ia ainda meus “Amantes de Paris”, cem hexâmetros, sim senhor, e minha “Morte de Paris”, duzentos hexâmetros! –
Recomeço:
Logo, o poeta é um verdadeiro roubador do fogo.
Responde pela humanidade e até pelos animais; deverá fazer com que suas invenções sejam cheiradas, ouvidas, palpadas; se o que transmite do fundo possui forma, dá-lhe forma; se é informe, deixa-o informe. Encontrar uma língua;
– Afinal, como toda palavra é ideia, a linguagem universal há de chegar um dia. É preciso ser acadêmico – mais morto que um fóssil – para elaborar um dicionário, em que língua seja. Os fracos que se pusessem a pensar sobre a primeira letra do alfabeto poderiam rapidamente mergulhar na loucura! –
Essa língua será da alma para a alma, resumindo tudo, perfumes, seres, sons: pensamento que se engancha a um pensamento e o puxa para fora. O poeta seria o indicador da qualidade de desconhecido despertada em seu tempo na alma universal; daria mais: a fórmula de seu pensamento, a notação de seu avanço no Progresso! Enormidade se fazendo norma, absorvida por todos, ele seria verdadeiramente um multiplicador de progresso!
Esse futuro será materialista, como vê; – Sempre repleta, de Número e de Harmonia, essa poesia será feita para ficar. – No fundo, seria ainda um pouco a Poesia grega.
A arte eterna terá suas funções, já que os poetas serão cidadãos. A Poesia não marcará mais o ritmo da ação; ela estará na frente.
Esses poetas virão! Quando for quebrada a servidão infinita da mulher, quando ela viver para si e por si mesma, quando o homem – até então abominável – lhe tiver dado sua alforria, também ela será poeta! A mulher encontrará o ignoto! Seu mundo de ideias diferirá do nosso? – Ela encontrará coisas estranhas, insondáveis, repelentes, deliciosas; nós as tomaremos, as compreenderemos.
À espera disso, insistamos com os poetas pelo novo – ideias e formas. Todos os hábeis estariam convictos de haver satisfeito a essa demanda. – Mas não é isto!
Os primeiros românticos foram videntes sem se darem muita conta disto: o cultivo de suas almas começou por acidente: locomotivas abandonadas, mas resfolegantes, que às vezes  entram nos trilhos. – Lamartine mostra-se às vezes vidente, mas estrangulado pela forma envelhecida. – Hugo, cabeçudo demais, tem muito de VISTO em seus últimos volumes: Os Miseráveis são um verdadeiro poema. Tenho Les Châtiments [Os Castigos] à mão; Stella dá-nos mais ou menos a medida da visão de Hugo. Demasiado de Belmontet e de Lamennais, de Jeovás e de colunas, velhas enormidades cediças.
Musset é catorze vezes execrável para nós, gerações sofredoras e obcecadas pelas visões, – insultadas por sua angelical preguiça! Ó! Os contos e os provérbios insípidos! ó as noites! ó Rolla, ó Namouna, ó a Taça! Tudo é francês, ou seja, odiento ao grau supremo; francês, não parisiense! Mais uma obra desse gênio odioso que inspirou Rabelais, Voltaire, Jean La Fontaine, comentado pelo Sr. Taine! Primaveril, o espírito de Musset! Fascinante, o seu amor! Eis aí a pintura a esmalte, da poesia sólida! Por muito tempo a poesia francesa será saboreada, mas na França. Qualquer jovem empregado de mercearia é capaz de desembuchar um apóstrofe à la Rolla; todo seminarista traz suas quinhentas rimas no segredo de um caderno. Aos quinze anos, esses arroubos de paixão põem os jovens no cio; aos dezesseis, já se contentam em recitá-los com sentimento; aos dezoito, ou mesmo aos dezessete, todo colegial que tem a possibilidade faz seu Rolla, escreve um Rolla! Alguns talvez ainda morram por isso. Musset não soube fazer nada: havia visões por trás da gaze das cortinas: ele fechou os olhos. Francês, molenga, arrastado do boteco para a cátedra colegial, o belo morto está morto, e, agora, não nos demos sequer ao trabalho de despertá-lo com as nossas abominações!
Os segundos românticos são muito videntes: Th[éophile] Gautier, Lec[onte] de Lisle, Th[éodore] de Banville. Mas como inspecionar o invisível e escutar o inaudito era algo diferente de retomar o espírito das coisas mortas, Baudelaire é o primeiro vidente, rei dos poetas, um verdadeiro Deus. Contudo, viveu num meio por demais artístico; e sua forma, tão elogiada, é de fato mesquinha: as invenções do ignoto requerem formas novas.
Afeita às velhas formas, entre os inocentes, A. Renaud, – fez seu Rolla; L. Grandet, – fez seu Rolla; os gauleses e os Musset, G. Lafenestre, Coran, Cl. Popelin, Soulary, L. Salles; os discípulos, Marc Aicard, Theuriet; os mortos e os ibecis, Autran, Barbier, L. Pichat, Lemoyne, os Deschamps, os Desessarts; os jornalistas, L. Cladel, Robert Luzarches, X. de Ricard; os fantasistas, C. Mendès; os boêmios; as mulheres; os talentos, Leon Dierx e Sully-Prudhomme, Coppée, – a escola nova, dita parnasiana, tem dois videntes, Albert Mérat e Paul Verlaine, um verdadeiro poeta. – É tudo. Por isso trabalho para me tornar vidente. – E terminemos com um canto piedoso.


AGACHAMENTOS


Seria execrável de sua parte se não me respondesse: logo, porque daqui a oito dias estarei em Paris, talvez.
Até a vista,

A. Rimbaud.

Senhor Paul Demeny,
Douai.






Arthur Rimbaud
Prosa poética (fragmento)

Tradução de Ivo Barroso



A MANHÃ

            Já não foi uma vez adorável, heróica, fabulosa a minha mocidade, dessas de se inscrever em páginas de ouro,  promissora demais! Qual o crime, que erro, me fez merecer a miséria de agora? Vós que admitis possam as bestas soluçar de dor, os doentes se desesperarem, terem os mortos sonhos maus, tentai descrever minha queda e meu sono. Eu por mim, já não me explico melhor do que um mendigo com seus constantes padre-nossos e ave-marias. Não sei mais falar!
            Hoje creio haver, no entanto, terminado a relação de meu inferno. E era bem o inferno; o antigo, aquele cujas portas o filho do homem abriu.
            Neste mesmo deserto, nesta mesma noite, meus olhos cansados despertam sempre à luz da estrela cor de prata, sempre, sem que se comovam os reis da vida, os três magos, o coração, a alma, o espírito. Quando iremos afinal, além das praias e dos montes, saudar o nascimento do trabalho novo, da nova sabedoria, a fuga dos tiranos e demônios, o fim da superstição, para adorar   os primeiros! o Natal na terra!
            O cântico dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não amaldiçoemos a vida.


MANHÃ DE EMBRIAGUEZ

            Oh meu Bem, oh meu Belo! Fanfarra atroz em que não mais tropeço! cavalete feérico! Hurra pela a obra inaudita e pelo corpo maravilhoso, pela primeira vez! Tudo começou com risos de crianças, com eles vai terminar. Este veneno permanecerá em nossas veias mesmo quando acabar a fanfarra e voltarmos a nossa antiga inarmonia. Ó, agora que somos tão dignos dessas torturas! recolhamos fervorosamente esta promessa sobreumana feita ao nosso corpo e à nossa alma criados: esta promessa, esta demência! A aparência, a ciência, a violência! Prometeram-nos enterrar na sombra a árvore do bem e do mal, desterrar as honestidades tirânicas, para que pudéssemos realizar o nosso amor mais puro. Começou com certas repugnâncias e terminou, ­— não nos sendo possível apreender de imediato essa eternidade, — terminou com uma debandada de perfumes.
            Risos de crianças, discrição dos escravos, austeridade das virgens, horror das faces e objetos daqui, sagrado sede vós pela lembrança desta vigília. O que havia começado com toda a grosseria, eis que vai acabar em anjos de chama e gelo.
            Curta vigília de embriaguez, sagrada! ainda que não seja pela máscara com que nos gratificaste. Nós te confirmamos, método! Não nos esquecemos que ontem glorificaste cada uma de nossas idades. Temos fé no veneno. Sabemos dar nossa vida inteira todos os dias.
            Eis o tempo dos Assassinos.



ARTHUR RIMBAUD – (1854-1891). Poeta francês. Considerado pós-romântico e precursor do surrealismo, é uma das maiores influências da poesia moderna. Jean Nicolas Arthur Rimbaud nasce em Charleville e revela vocação para os versos ainda no colégio. Foge de casa diversas vezes durante a adolescência.
Muda-se para Paris aos 17 anos, financiado pelo poeta Paul Verlaine, a quem enviara seu Soneto das Vogais (1871). Um ano depois Verlaine deixa a família para viver com Rimbaud em Londres. A tempestuosa relação amorosa entre os dois termina quando Rimbaud é ferido por Verlaine com um tiro no pulso.
Uma Estação no Inferno (1873) e Iluminações (1886) revelam uma consciência estética nova, uma linguagem libertária, a idéia de que a poesia nasce de uma alquimia do verbo e dos sentidos. Quando termina Iluminações, aos 20 anos, desiste da literatura e retoma a vida errante que o caracterizara na adolescência.
Comercializa peles e café na Etiópia, alista-se no Exército colonial holandês, para desertar logo depois, trafica armas em Ogaden, vai para o Chipre e para Alexandria. Em 1891 tem a perna amputada, em decorrência de um câncer no joelho. Morre em Marselha, depois de demorada agonia.

CLAUDIO WILLER – Doutor em Letras na USP.. Poeta, ensaísta e tradutor; publicou livros como Geração Beat (L&PM Pocket, 2009), Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (Civilização Brasileira, 2010) e vários ensaios na coletânea O Surrealismo (Perspectiva, 2008).

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz - 10 de outubro de 2011







Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz - A poesia brasileira contemporânea para além do verso - 10 de outubro de 2011

Poemas de

 Antonio Cicero


DIAMANTE

O amor seria fogo ou ar
em movimento, chama ao vento;
e no entanto é tão duro amar
este amor que o seu elemento
deve ser terra: diamante,
já que dura e fura e tortura
e fica tanto mais brilhante
quanto mais se atrita, e fulgura,
ao que parece, para sempre:
e às vezes volta a ser carvão
a rutilar incandescente
onde é mais funda a escuridão;
e volta indecente esplendor
e loucura e tesão e dor.

ALGUNS VERSOS

As letras brancas de alguns versos me espreitam,
em pé, do fundo azul de uma tela atrás
da qual luz natural adentra a janela
por onde ao levantar quase nada o olhar
vejo o sol aberto amarelar as folhas
da acácia em alvoroço: Marcelo está
para chegar. E de repente, de fora
do presente, pareço apenas lembrar
disso tudo como de algo que não há de
retornar jamais e em lágrimas exulto
de sentir falta justamente da tarde
que me banha e escorre rumo ao mar sem margens
de cujo fundo veio para ser mundo
e se acendeu feito um fósforo, e é tarde.


EU VI O REI PASSAR

Um rei assim
não ouve muito bem
e adora luz;
sem ver ninguém
prefere olhar
o horizonte, o céu:
longe daqui
é tudo seu.

Seu sangue azul
ninguém diz de onde vem
de que sertão
que mar, que além;
e para nós
ele jamais se abriu
senão uma vez
depois partiu.
Um rei assim
cultiva a solidão
sombria flor
no coração
e claro é
que o pêndulo do amor
às vezes vai
até a dor

Devo dizer
que não sofri demais.
Devo dizer
que acordei.
Mesmo sem ser
tudo que imaginei
devo dizer
que o amei.


Poemas de

Eucanaã Ferraz


NO GRANDE HOTEL DO PORTO

Gaivotas são invenções de Da Vinci, crianças
loucas, tesouras loucas, cães aéreos

de tão lépidos. Folhas em branco: a língua do vento.
Mas por que àquela hora tal agitação de asas?

Se desejavam algo, o que fosse, nada lhes poderia
dar ou emprestar, Imperador de uma tal pobreza,

a fronte cingida apenas pela febre. Era preciso
dizer àquelas aves que não havia água, que

talvez e sempre só tenha havido solidão
e mágoa em torno dele e dentro,

búzio vazio e mudo, poço exangue,
corredor sem portas, poço horizontal,

corredor para o fundo. Lembra: o médico
preceituara repouso, purgantes, filtros, infusões

e sua voz, salina, à maneira de cristais caía
dos olhos, não vinha da boca, e se acumulava

em cacos verdes na bacia redonda e grossa
dos óculos. Tudo inútil. Tudo nada.

Por que gaivotas àquela hora? Verso que se
lhes assemelhasse era um espalhamento de sílabas

atordoadas, felizes de não terem sentido, puro alarde
do ritmo, o mais alto, sobre o chão. Mas

nunca soubera o que fosse isso. E ali, a cortar o céu
noturno do Porto, a voz delas era uma foz estridente,

a mais terrível canção de exílio. Não deveria haver
jamais gaivotas sobre o teto de nenhum hotel,

proibidos tais gritos brancos de espuma, pois
a noite tem de ser a noite, sem pontes, hermética.

No entanto, lá estavam elas, violentas,
rodopiando como lâminas inglesas, azuis.
Era preciso considerar: um hotel ensina-nos mais
que todas as filosofias: não ficar, não ter, não ser.

E na massa escura de tudo, imaginou com a ironia
que lhe restava: um dia, a pompa de uma placa

(a Europa e seus ouropéis) à porta de entrada:
“Por ocasião da última visita realizada à Cidade

Invicta em dezembro de 1889, os Imperadores do Brasil
Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina estiveram

hospedados neste hotel.” Não dirão que já não eram
senão, mal e mal, um homem, uma mulher.

Calarão que a Imperatriz – que já não era – deixara,
ali, de ser hóspede de tudo. Aqui está a chave!

Sobre o telhado, a cama, a mulher morta,
a insônia, elas, as gaivotas, ensinariam

(se ensinassem algo) àquele homem,
àquele miserável, mais que toda ciência

e toda literatura: nadar, andar a vau, elevar-se
alegre, planar, fazer de tudo campo aberto

de abrir-se. A régua que carregam
nunca cega.


VIA

Eu caminhava nu, sem que você visse.
Pra que você visse, eu caminhava sem.
Você não via. Pra que você soubesse,
eu caminhava nem, sem que você visse,

eu caminhava livre, além do limite de
ser ninguém, sem remo e sem alento,
o andar isento quase de mim mesmo,
num estranho, cansado engano,

sem âncora, no vento, e mais contente.
Nu, livro ao avesso; nu, anel sem dedo;
nu, anel sem dentro; nu, a pedra
bruta; nu, um livro bruto, antes
do acabamento, cimento grosso,
na antemão da cal, da letra, descampado,
como se a mão de alguém me desenhasse,
antiqüíssimo, no dorso de um vaso.

Sem poder ser belo, sem poder ser feio,
coisa-coisa no espaço, no tempo, eu ia.
O sol me reconhecia: eu era o filho
mais novo do boro e do alumínio.

Meu passo exalava o hálito do barro.
As crianças me apontavam, riam.
Tudo se condensava à minha roda.
No entanto, nenhuma flor surgia

nos meus passos: os brejos permaneciam
sáfaros, cobertos de urzes, sem que nada
fosse esquivo, estranho ou intratável,
nenhum recife, navalha ou gesto sórdido.

E pra que se desse a ver, meu silêncio
dizia: cabelo, pele. Sorri: os anjos de pedra
me acenaram. Eu caminhava sem,
em você, sem que você visse.


ANTONIO CICERO – Poeta e ensaísta. É autor, entre outras coisas, dos livros de ensaios filosóficos O mundo desde o fim (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995) e Finalidades sem fim (São Paulo: Companhia das Letras, 2005), e dos livros de poemas Guardar (Rio de Janeiro: Record, 1996), A cidade e os livros (Rio de Janeiro: Record, 2002) e, em parceria com o artista plástico Luciano Figueiredo, O livro de sombras: pintura, cinema e poesia (Rio de Janeiro, + 2 Editora, 2010). Em colaboração com o poeta Eucanaã Ferraz, editou a Nova antologia poética de Vinícius de Moraes (São Paulo: Companhia das Letras, 2003)e, em colaboração com o poeta Waly Salomão, editou o livro O relativismo enquanto visão do mundo (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994). Além de várias teses e artigos, dois livros foram escritos sobre sua obra: Do princípio às criaturas, de Noemi Jaffe (São Paulo: Capes e USP, 2008) e Antonio Cicero, de Alberto Pucheu (Rio de Janeiro: UERJ, 2010).

EUCANAÃ FERRAZ – Professor de literatura brasileira da UFRJ. Poeta, escreveu, entre outros, os livros de poemas Cinemateca (Companhia das Letras, 2008), Rua do mundo (Companhia das Letras, 2004), publicado em Portugal (Quasi, 2006), Desassombro (7 Letras, 2002, prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional), publicado em Portugal (Quasi, 2001) e Martelo (Sette Letras, 1997).
Organizou os livros Letra só, com letras de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 2003), publicado em Portugal (Quasi, 2002); Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (Nova Aguilar, 2004), a antologia Veneno antimonotoniaOs melhores poemas e canções contra o tédio (Objetiva, 2005) e O mundo não é chato, com textos em prosa de Caetano Veloso (Companhia das Letras, 2005). Publicou ainda, na coleção Folha Explica, o volume Vinicius de Moraes (Publifolha, 2006).
Edita, com André Vallias, a revista on line Errática (www.erratica.com.br).

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Próxima Roda:

Em outubro a poesia contemporânea ganha lugar com as presenças inestimáveis de Eucanaã Ferraz e Antonio Cicero.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Dante Alighieri por Marco Lucchesi - A Divina Comédia: do Universal ao particular - 19 de setembro de 2011

A Divina Comédia (fragmento)

Dante Alighieri


Tradução de Cristiano Martins

PARAÍSO – CANTO XXXIII 
Visão final de Deus

            São Bernardo roga a intercessão de Maria para habilitar o poeta à contemplação da essência divina. A seguir, convida o seu companheiro a erguer os olhos ao raio resplendente, em que pôde divisar a forma universal, na sua substância, no seu acidente, e no respectivo composto. E viu o ponto luminoso desdobrar-se em três anéis, como numa representação do mistério da Trindade, sendo que num deles se instilava a forma de um rosto, numa representação do mistério da Encarnação.

1          “Ó Virgem mãe, ó filha de teu Filho,
            mais alta e humilde que  qualquer criatura,
            dos eternos desígnios termo e brilho!

4          Em ti se sublimou a tanta altura
            a humana condição, que o seu Fautor
            em tornar-se acedeu sua feitura.

7          No teu seio fulgiu o doce amor
            a cuja luz intensa e resplendente
            germinou deste modo a eterna flor.

10        Aqui és para nós a transparente
            face da caridade; e da esperança,
            entre os mortais, és fonte permanente.

13        Tamanha é nestes céus tua pujança,
            que quem o bem, sem ti, busca, hesitante,
            como que a voar sem asas se abalança.

16        Não só a quem te invoca, suplicante,
            brilha o fulgor de tua caridade,
            senão que às vezes vem do rogo adiante.

19        Em ti todo o perdão, toda a piedade,
            toda a doçura, no padrão superno
            confluem da mais ínclita bondade.

22        Este, que dos desvãos finais do inferno
            chega, já tendo visto, uma por uma,
as três partes do reino sempiterno,

25        roga-te, qual na terra, lá, costuma,
            a graça de lhe abrires a visão
            ao resplendor da claridade suma.

28        E visto que não ardo mais, então,
            no meu desejo do que pelo seu,
            eu te dirijo agora esta oração,

31        porque de seu estado o espesso véu
            tu lhe removas com tua bondade,
            e a vera luz possa enxergar do céu.

34        E como tudo podes, na verdade,
            peço-te, ó Mãe, que após esta visão
            tu lhe conserves da alma a integridade,

37        por dominar a humana inquietação:
            Olha Beatriz, olha os beatificados,
a orar comigo, unindo mão a mão!”

40        Os olhos do bom Deus tanto admirados,
            atentos em Bernardo, revelaram
            como os apelos seus lhe eram prezados;

43        depois, no eterno lume se fixaram,
            como outros olhos tão profundamente
            jamais em sua essência penetraram.

46        Eu, que da meta de minha ânsia ardente
            me aproximava, então, como devia,
            de todo afã me despojei à frente.

49        Bernardo me acenava, e me sorria,
            por os olhos erguer; mas eu já estava,
            por mim, fazendo o que ele me pedia.

52        E minha vista, cristalina, entrava
            pela própria raiz do resplendor
            que em si, tão só, e só por si, brilhava.


55        Tornou-se, então, minha visão maior
            que a voz humana, e foi insuficiente
            o senso da memória a tal fulgor.

58        A jeito de quem sonha, e apenas sente,
            após o sonho, uns restos da impressão,
            enquanto o mais se lhe desfaz na mente,

61        eu me encontrava, ao fim desta visão,
            que apesar de desfeita ainda instila
            sua doçura no meu coração.

64        Assim ao sol a neve se destila;
            e assim ao vento as folhas fugidias
            se perdiam do augúrio da Sibila.

67        Ó suma luz, que ali me transcendias
            o conceito mortal, dá-me somente
            um sinal do esplendor em que fulgias,

70        e torna a minha voz ora potente
            por que um vislumbre ao menos de tal glória
            possa eu deixar à porvindoura gente!

73        Se algo de ti me vier inda à memória,
            e no meu canto acaso for lembrado,
            mais na terra soará tua vitória!

76        Feriu-me de tal modo o lume iriado
            que se desviasse os olhos acredito
            jamais de novo o houvera divisado.

79        E, pois, fitei-o, agora mais convicto
            de suportá-lo, e minha vista, assim,
            ao bem se prolongou, alto e infinito.

82        Ó graça eterna, que me fez, por fim,
            o lume desvendar, sublime e terso,
            cujo esplendor repercutia em mim!

85        E no seu fulcro vi brilhar converso,
            em perfeita e veraz composição,
            tudo o que pelo mundo está disperso.

88        A substância e o acidente, e sua união,
            subitamente ali pude abranger,
            na sua própria e primordial razão.

91        A forma universal, a essência e o ser,
eu divisei no módulo subido,
que a mencioná-lo sinto igual prazer.



94        Mas trouxe-me um instante mor olvido
que vinte e cinco séculos à empresa
de Argos, que fez Netuno surpreendido.

97        Concentrava-se ali, atenta e presa
            a tal contemplação, a minha mente,
            no objeto da visão somente acesa.

100      Ó luz que nos atrais tão fortemente,
            que abandonar-te por um outro efeito
            jamais a quem te vê não se consente!

103      Pois o bem, que o querer nos traz sujeito,
            em ti se acolhe e só de ti promana;
            e só em ti se encontra o que é perfeito!

106      Por narrar o que vi é a voz humana
            mais que a de uma criança insuficiente,
            que ao seio da nutriz inda se afana.

109      Não que vários aspectos, simplesmente,
            na luz se demonstrassem, que eu fitava,
            e que era em si a mesma e permanente,

112      mas porque meu olhar se incrementava
            tanto, fitando-a, que uma só essência,
            à minha mutação, se transmudava.

115      Na profunda e dilúcida aparência
            da luz vi três anéis, tendo três cores,
            mas uma só e igual circunferência.

118      Um refletia no outro os seus fulgores,
            como dois Íris, e o terceiro, à frente,
            de ambos colhia a um tempo os esplendores.

121      Ah! Como é vã a voz, e incompetente,
            por demonstrá-lo! E creio ser melhor
            calar do que dizer tão pobremente!

124      Ó luz que vives de teu próprio ardor,
            que em ti te sentes, e és por ti sentida,
            que em ti, e só por ti, és graça e amor!

127      A auréola, da primeira refletida,
            tal como à minha vista ressurgia,
            quando sobre ela um pouco foi detida,

130      um rosto humano ali me parecia
            ter instilado em sua irradiação;
            e, pois, todo para ela me volvia.



133      Como o geômetra, que intenta a medição
            do círculo, e porfia, e não atina
            co’ o princípio de sua indagação,

136      eu me sentia ante a visão divina:
            e buscava apreender como essa imagem
            na auréola se estampava, fidedigna.

139      Mas não bastava ao vôo minha plumagem;
            e súbito um relâmpago eclodia,
            que me aclarou, na lúcida voragem.

142      Aqui findou, sem força, a fantasia:
            mas já ao meu querer soltava as velas,
            qual a roda, co’ o moto em sincronia,

145      o Amor que move o sol, como as estrelas.

Fim
da
Divina Comédia

1. Ó Virgem mãe, ó filha de teu Filho: Aqui (e até ao verso 39) o poeta reproduz a oração dirigida a Maria por São Bernardo, como referido no último verso do Canto precedente.
6. Em tornar-se acedeu sua feitura: Deus, dada a suma perfeição em que se sublimou a natureza de Maria, escolheu-a para, através dela, tornar-se de Criador em sua própria criatura, no desígnio de promover a redenção do gênero humano.
7. No teu seio fulgiu o doce amor: O amor de Deus, através do qual a Encarnação do Verbo, repondo os homens na senda da salvação, fez florir ali aquela imensa rosa, que o poeta contemplava, e na qual se postavam as almas beatificadas (vejam-se o Canto XXX, versos 124 a 129, e o Canto XXXI, versos 1 a 3).
22. Este, que dos desvãos finais do inferno: Este, quer dizer, Dante, que desde o recôndito centro do Inferno chega agora ao Empíreo, depois de ter percorrido, uma a uma, as três partes do reino eterno (o Inferno, o Purgatório e o Paraíso)...
25. Roga-te, qual na terra, lá, costuma: O poeta, com efeito, se confessara devoto de Nossa Senhora, cujo nome invocava, na terra, dia e noite (veja-se o Canto XXIII, versos 88 a 90).
28. E visto que não ardo mais, então: Bernardo observa, gentilmente, que o seu próprio desejo de fruir da contemplação de Deus não excedia, ali, ao de seu companheiro, e por isto é que implorava à Virgem que propiciasse ao poeta essa visão.
31. Porque de seu estado o espesso véu: Posto que o poeta ali se encontrava ainda em vida, era mister que a inspiração divina lhe removesse as limitações (o espesso véu) de sua condição mortal, para poder alçar-se depurado, à contemplação de Deus.
            38. Olha Beatriz, olha os beatificados: Beatriz e as almas escalonadas pelas pétalas da imensa rosa pareciam juntar-se ali à prece de Bernardo, quedando-se de mãos postas, enquanto o Santo pronunciava estas palavras.
            40. Os olhos do bom Deus tanto admirados: Os olhos de Maria, que estavam postos em Bernardo pelo tempo que durou sua oração.
            55. Tornou-se,  então, minha visão maior: O poeta se escusa por não poder descrever, exatamente, como, naquele instante, via Deus, pois que tal visão excede ao poder da expressão humana, e nem a memória mortal, por sua vez, poderia conservá-la na sua miraculosa realidade.
            64. Assim ao sol a neve se destila: A visão divina, de que eu desfrutei, diluiu-se naturalmente, após manifestar-se, no meu pensamento, como a neve que se desfaz ao calor do sol, e como os oráculos da Sibila que, escritos nas leves folhas, eram logo dispersados pelo vento.
            71. Por que um vislumbre ao menos de tal glória: E já que lhe era impossível, com os seus próprios meios, narrar exatamente o que vira, o poeta implora à graça divina que lhe proporcione, ao escrever, a força por manifestar ao menos um vislumbre daquela luz celeste, para deixá-lo às gerações futuras como um humilde serviço à glória de Deus e da Igreja.
            94. Mas trouxe-me um instante mor olvido: O poeta significa que um só segundo transcorrido após a visão acarretava-lhe um esquecimento maior do que o que vinte e cinco séculos poderiam ter trazido à empresa dos Argonautas, cuja nau (Argos) singrou os mares para espanto de Netuno. Dois milênios e meio não bastaram para fazer olvidar aquele feito; um breve instante, entretanto, já lhe apagava da memória os traços da sublime visão.
            114. À minha mutação, se transmudava: À medida em que contemplava a luz divina, maior penetração adquiria o olhar do poeta. E, assim, como que se ia transmudando em sua vista aquela luz, que era, entretanto, em sua essência, imutável.
            116. Da luz vi três anéis, tendo três cores: Nessa aparente e apenas reflexa transmutação do foco luminoso (Deus), o poeta viu destacarem-se três anéis, coloridos e de igual circunferência, significando, obviamente, o mistério da unidade e da trindade divina.
            118. Um refletia no outro os seus fulgores: Os dois anéis, um refletindo no outro os seus fulgores, como um arco-íris que se desdobra, eram a representação, na Santa Trindade, do Pai e do Filho; e o terceiro, que recolhia dos outros a sua flama, o era do Espírito Santo.
            127. A auréola, da primeira refletida: A auréola referida no verso 118, que recebia o reflexo da primeira, quer dizer, o Filho (o Verbo divino), parecia configurar na sua irradiação uma face humana, como representação do Verbo unido à natureza mortal, Cristo, a Encarnação.
            133. Como o geômetra que intenta a medição: A medição aqui referida seria, segundo o consenso dos comentadores, a especulação sobre o problema da quadratura do círculo.
            139. Mas não bastava ao vôo minha plumagem: Minha força (minha plumagem) era insuficiente para tal vôo, isto é, para alcançar a razão porque se demonstrava no círculo luminoso a imagem humana. Mas um súbito relâmpago eclodiu ali, e deixou-me entrever, no seu lampejo, aquilo que eu procurava.
            142. Aqui findou, sem força, a fantasia: Neste ponto, extinguiu-se a minha fantasia; quer dizer, a minha visão terminou.
            143. Mas já ao meu querer soltava as velas: Extinta a minha visão, senti que a Providência (o Amor que move o sol, como as estrelas) já impelia os meus anelos e aspirações para outros rumos (as preocupações e tarefas da vida terrena, ou quotidiana, provavelmente).
            Observe-se que tanto o Cântico do Paraíso, como o do Inferno e o do Purgatório, têm por fecho a palavra estrelas. O poeta dedicava especial apreço à doutrina corrente em seu tempo de que o destino dos homens se influía pelas estrelas.

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DANTE ALIGUIERI – (1265 – 1321). Escritor, poeta e político italiano. É considerado o primeiro maior poeta da língua italiana e o mais importante pensador de sua época. Redigiu o poema, de viéis épico e teológico, La Divina Commedia (a Divina Comédia), que se tornou a base da língua italiana moderna no qual transparece o modo medieval de entender o mundo. Nasceu em Florença, onde viveu a primeira parte da sua vida até ser injustamente exilado.

MARCO LUCCHESI – Poeta, professor, ensaísta e tradutor. Formado em História pela UFF, Doutor em Ciência da Literatura pela UFRJ e Pós-Doutor em Filosofia da Renascença na Universidade de Colônia, na Alemanha. Autor, entre outros, dos livros O dom do crime, Meridiano celeste & bestiário de Sphera. É membro da Academia Brasileira de Letras.







quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Próxima Roda:

Nessa Roda faremos uma leitura do clássico de Dante Alighieri - A Divina Comédia, que será decifrada pelo poeta e exímio tradutor Marco Lucchesi.